Um dia disseram-me que ninguem morre de desgosto, e agora tenho a certeza que não. Ninguem morre de tal coisa. Descobri que é preciso ser mais que humano. Para morrer de desgosto é preciso ser-se imortal. Porque um desgosto significa um fim, e esse é o único fim no universo imortal. Por vezes sentimo-lo chegar, ao longe, ele vai-se desenhando.Primeiro é um esboço, depois leva a sua primeira pincelada, uma segunda e uma terceira. Somente uma pessoa o pode parar, mas essa pessoa é aquela que esconde a borracha e agarra nas tintas para desenhar. Não temos escolha, podemos pegar numa borracha, mas são precisos dois para que a folha fique em branco. Nunca imagines o branco numa folha preta. Não podes ser só tu a tentar. Pois as forças que gastares ao faze-lo serão as mesmas que vais ter para destruir o grande esboço que agora se desenha. Quando não distinguires a pintura da realidade. então aí é tarde demais, esse desenho vai-te consumir, gastar todas as tuas forças. Mas vais ter de ser só tu a apagar esse desenho e tudo o que te liga a ele. O meu desenho, alguem o completou, pois quem tem o corretor a muito que se foi embora. O desenho vai ficar aqui, de lado, ate eu ganhar forças para conseguir apagá-lo. Pois já não espero pelo corrector.
domingo, 22 de abril de 2007
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